Avaliação de Riscos à Segurança e Saúde

Avaliação de Riscos

Avaliação de riscos é uma etapa básica em qualquer estratégia de prevenção de acidentes e preservação da saúde dos trabalhadores. Embora seja uma técnica bastante conhecida e prevista nas diversas normas de sistema de gestão existentes, tais como OHSAS 18001, ainda se notam alguns equívocos no seu desenvolvimento, o que dificulta a sua aplicação e correta compreensão.
Neste artigo discutiremos como fazer avaliações de riscos eficientes e eficazes.

O que é uma avaliação de riscos

Avaliação de riscos é uma forma padronizada de analisar os perigos e as potenciais consequências à segurança e saúde dos trabalhadores existentes no desempenho de alguma atividade. Esta avaliação em muito se assemelha à técnica FMEA (da qual pessoalmente desconfio que tenha se originado), muito usada na Gestão da Qualidade.

Avaliações de riscos

Para que servem avaliações de riscos

As avaliações de riscos tem, pelo menos, três finalidades:
1 – Estudar as atividades laborais, mapear suas vulnerabilidades em termos de ameaças à segurança e saúde dos trabalhadores e definir as medidas de controle aplicáveis para fazer com que o nível de risco seja aceitável;
2 – Fornecer subsídios para treinar os trabalhadores envolvidos nas atividades avaliadas;
3 – Documentar estas avaliações conforme as expectativas do sistema de gestão (se existente) ou eventuais fiscalizações.

Como devem ser feitas

Como estas avaliações têm finalidades distintas, elas devem ser feitas do modo mais abrangente possível e produzir diferentes formas de mostrar seus resultados. A maneira de se fazer isto será explicada mais adiante.
É necessário desenvolver uma metodologia que permita decompor as atividades analisadas em suas diversas etapas e avaliar cada uma delas de forma independente. A avaliação de riscos é feita levando-se em consideração a frequência da exposição e a gravidade das consequências caso estas se concretizem. A aceitação do risco somente deve acontecer caso os mesmos sejam toleráveis conforme a metodologia adotada.
Conforme a metodologia básica para se fazer avaliações de riscos, a primeira etapa é descrever a atividade e decompô-la em suas diversas etapas, conforme exemplo abaixo:

Atividade: Conserto de Pneu

Etapa Perigo Tipo de Risco Risco
Retirada da roda do carro Manuseio de materiais

Uso de ferramentas manuais

Uso de ferramentas energizadas (pneumáticas / elétricas)

Acidente

Ergonômico

Físico

Queda de materiais; Aperto de mãos e dedos; Choque elétrico; Projeção de partículas

Lesões por esforços excessivos ou repetitivos

Ruído

Desmontagem do pneu (remoção do aro) Manuseio de materiais

Uso de ferramentas manuais

Uso de ferramentas energizadas (pneumáticas / elétricas)

Uso da removedora de pneus

Acidente

Ergonômico

Físico

Queda de materiais; Aperto de mãos e dedos; Choque elétrico

Lesões por esforços excessivos ou repetitivos

Ruído

Análise do pneu (procura do furo ou defeito) Manuseio de Materiais

Uso da banheira

Acidente

Ergonômico

Queda de materiais; Escorregões (devido à umidade)

Lesões por posturas forçadas

Aplicação do reparo (remendo) Manuseio de Produtos Químicos

Manuseio de Materiais em bancada

Químico

Ergonômico

Exposição a vapores orgânicos

Lesões por esforços excessivos, repetitivos ou posturas forçadas

Montagem do pneu na roda Manuseio de materiais

Uso de ferramentas manuais

Uso de ferramentas energizadas (pneumáticas / elétricas)

Uso da removedora de pneus

Acidente

Ergonômico

Físico

Queda de materiais; Aperto de mãos e dedos; Choque elétrico

Lesões por esforços excessivos ou repetitivos

Ruído

Colocação da roda no carro Manuseio de materiais

Uso de ferramentas manuais

Uso de ferramentas energizadas (pneumáticas / elétricas)

Acidente

Ergonômico

Físico

Queda de materiais; Aperto de mãos e dedos; Choque elétrico; Projeção de partículas

Lesões por esforços excessivos ou repetitivos

Ruído

Após decompostas as atividades e identificados os seus perigos e riscos, é necessário quantificar estes riscos conforme algum critério. Neste exemplo, o critério adotado é o da tabela abaixo, bastante comum, que gradua o risco conforme as consequencias potenciais de uma ocorrência versus a frequencia de exposição:

Matriz de Riscos

Tomando novamente o exemplo proposto acima, cada linha deve ser analisada conforme os critérios propostos – Frequência da Exposição / Probabilidade de Ocorrência versus Gravidade da Consequência. Como se trata de um exercício bastante longo e repetitivo, será feito em somente uma linha, a título de exemplo. A planilha com a avaliação completa pode ser vista aqui.

Etapa Perigo Tipo de Risco Risco Frequencia da Exposição Consequencia Grau do Risco
Retirada da roda do carro Manuseio de materiais Acidente

Queda de materiais

5 3 15

Aperto de mãos e dedos

5

4 20
Choque elétrico 2 4

8

Projeção de partículas 2 4

8

Por simplicidade, a análise é apresentada sem considerar avaliação antes da aplicação dos controles. A análise completa pode ser vista na planilha referenciada anteriormente.
Conforme a metodologia aplicada, os riscos “Choque Elétrico” e “Projeção de Partículas” são toleráveis, ou seja, podem ser assumidos da forma como estão. Já os riscos “Queda de Materiais” e “Aperto de Mãos e Dedos” requerem cuidados. A interpretação da linha acima deve ser cuidadosa. “Assumir os riscos da forma como estão” não significa que a atividade possa ser negligenciada. Significa que deve ser mantida nas condições em que foi feita a análise. No exemplo, a avaliação do risco “Choque Elétrico” foi considerada tolerável pois a avaliação considerou a fiação elétrica como íntegra, as conexões elétricas em perfeitas condições e o painel elétrico equipado com o disjuntor diferencial (dispositivo “DR”) exigido pela NBR 5410. Qualquer desvio em relação a estas condições deve ser corrigido imediatamente e impede a realização da atividade até a sua correção.
A classificação “Requer Cuidados” significa que, além de manter as instalações em bom estado de conservação, são necessárias medidas de controle adicionais para que e atividade seja executada com segurança. No exemplo, para que a atividade que apresenta o risco “Aperto de Mãos e Dedos” possa ser executada com segurança é necessário que o funcionário que as realiza seja treinado na forma correta de manusear suas ferramentas para evitar que aperte seus próprios dedos.

Quem deve fazê-las

As avaliações de riscos são muito importantes e devem ser feitas de preferência em grupo, pois é improvável que um único indivíduo consiga abranger todos os riscos da atividade. O grupo responsável pela avaliação deve conhecer muito bem a atividade e deve também ser treinado na metodologia. É comum que estas avaliações contem com um facilitador, que, embora não conheça tão bem a atividade, tem conhecimento da metodologia e habilidade para conduzir o grupo durante a avaliação.

Quando devem ser feitas

As avaliações de riscos devem ser feitas tão cedo quanto possível. Seja durante uma varredura para adequação aos requisitos de um sistema de gestão ou durante a etapa de projeto de uma atividade. O importante é que sejam feitas o quanto antes e mantidas atualizadas. Recomenda-se que sejam revistas anualmente. Um ponto importantíssimo a considerar (e que frequentemente passa despercebido) é que qualquer mudança significativa na atividade requer uma atualização da avaliação. Este assunto será eventualmente aprofundado em artigo futuro sobre Gestão de Mudanças.

Armadilhas na Elaboração de Avaliações de Riscos

Conforme mencionado anteriormente, há alguns equívocos (bem comuns!) na elaboração e apresentação das análises de riscos que precisam ser evitados para não comprometer a credibilidade e eficiência destas avaliações. A seguir serão apresentados alguns destes equívocos e como evitá-los.

Superficialidade

Uma avaliação de risco não pode ser feita de forma leviana. Deve ser feita com afinco e decompor de forma sistemática a atividade em todas as suas etapas significativas. Desta forma poderão ser identificados todos os riscos da atividade e as medidas de controle necessárias para que se tornem toleráveis. As maneiras de evitar a superficialidade é aplicar uma metodologia robusta e, tanto quanto possível, simples. É necessário também capacitar a equipe responsável pelas avaliações. Além de capacitados, os indivíduos responsáveis pelas avaliações devem ser sensibilizados sobre a importância destas avaliações e EMPODERADOS para fazê-las sem se preocupar com  “invadir feudos” e ferir suscetibilidades de alguns gestores e funcionários.

 Excesso de detalhes

Assim como não pode ser superficial, o excesso de detalhes em uma análise de riscos também atrapalha pois faz com que esta fique muito longa, repetitiva e enfadonha. A equipe responsável pela avaliação acaba por desfocar do objetivo inicial e produz um documento pouco útil. O papel do facilitador é fundamental neste momento para evitar que a análise se torne excessivamente repetitiva. Novamente, uma metodologia robusta e a formação dos avaliadores é fundamental para evitar o excesso de detalhes.

Desconhecimento da atividade desempenhada

Um fundamento importantíssimo e imprescindível para a realização das avaliações de riscos é o conhecimento sobre a atividade. Não há como fazer boas avaliações de risco sem conhecer as atividades que se quer analisar. Ainda que o grupo encarregado das análises não conheça profundamente a metodologia, é necessário que seja conduzido de forma hábil para que coloque na análise todo o seu conhecimento. Este excelente vídeo, “An enhanced understanding of risk” – “Uma compreensão aprimorada do Risco” divulgado pela Norsk Olje & Gass – Associação Norueguesa de Óleo e Gás – explica muito bem a importância de se aplicar todos os conhecimentos e até mesmo percepções e sentimentos em uma análise, não se atendo somente à literatura técnica ou análises de risco genéricas. Nestes casos, a aritmética usada no cálculo do risco pode se revelar bem traiçoeira.

Falta de propósito

Avaliações de risco feitas para “cumprir tabela” estão fadadas ao fracasso. Isto ocorre porque o grupo ou indivíduo responsável por fazê-las se sente desrespeitado e tem consciência que somente está criando mais burocracia, sem resultados práticos de melhoria das condições de segurança. Assim como qualquer iniciativa de segurança, a realização de avaliações de risco precisa ser apoiada pela administração da organização em que é feita e deve produzir melhorias. Estas melhorias podem ser aprimoramentos da hierarquia de controles aplicados a alguma etapa específica da atividade analisada ou detalhamento do treinamento dos funcionários que a executarão.

Metodologia em três níveis para fazer avaliações de riscos

Considerando a importância e as dificuldades de se fazer avaliações de risco, é proposta uma metodologia em três níveis para se fazer estas avaliações. Esta metodologia ajuda a manter o nível da análise condizente com o nível de risco da empresa e facilita a comunicação da própria análise e de seus resultados e subprodutos.

Mapa de Perigos

O Mapa de Perigos é uma “visão de helicóptero” de todas as atividades desenvolvidas pela empresa sob o ponto de vista dos perigos oferecidos aos trabalhadores. É uma ferramenta livre onde devem ser colocados de forma hierarquizada conforme frequência de exposição e consequências potenciais os perigos existentes. Serve para calibrar o foco das equipes responsáveis por fazer as avaliações de risco e também para comunicar de forma muito sucinta quais são os perigos existentes e, dentre estes, quais são os mais significativos e que portanto exigirão maiores controles.
Um exemplo de Mapa de Perigos pode ser encontrado no link informado no parágrafo anterior.
Importante: O Mapa de Perigos apresentado neste artigo não deve ser confundido com o Mapa de Riscos previsto na NR-5 – CIPA, em seu item 5.16. O Mapa de Riscos é uma ferramenta de comunicação de riscos aos trabalhadores, enquanto o Mapa de Perigos é uma ferramenta de análise que também serve para comunicar Perigos.

Inventário de Atividades e Priorização de Riscos

Embora seja muito útil para alinhar conceitos, o Mapa de Perigos não serve como uma avaliação de riscos completa. Uma Avaliação de Riscos se inicia por uma lista das atividades desempenhadas na empresa em que se está desenvolvendo as análises: o Inventário de Atividades.
O Inventário de Atividades serve para coletar as informações básicas das atividades e fazer uma primeira priorização com base em uma avaliação qualitativa dos riscos oferecidos em cada atividade. Deve-se listar cada atividade e avaliar qual o potencial risco genérico desta atividade. Na tabela abaixo, é apresentado um exemplo de inventário com priorização de riscos:

 

Atividade

Tipo de Risco

Acidente

Físico Químico Biológico

Ergonômico

Manobra de Veículos

Baixo

Baixo Inexistente Inexistente

Baixo

Conserto de Pneu

Médio

Médio Médio Inexistente

Alto

Troca de Escapamento Alto Baixo Baixo Inexistente

Alto

Conforme a tabela, as atividades com a maior quantidade de riscos altos e médios devem ser avaliadas prioritariamente. De acordo com a metodologia adotada, atividades com níveis de risco mais baixo podem ser avaliadas de forma mais superficial ou até mesmo se pode abrir mão de analisá-las em sua totalidade. Em contrapartida, aquelas atividades com riscos mais altos, necessitarão de análises mais profundas.

Avaliações de Riscos – a “Cereja do Bolo”

A avaliação de riscos deve ser feita etapa por etapa para cada atividade existente conforme critérios previamente estabelecidos que consideram a frequência de exposição e a potencial gravidade de uma eventual ocorrência envolvendo os riscos mapeados.
A avaliação deve ser feita com os riscos “puros”, ou seja, sem as medidas de controle. Conforme o critério de aceitação de riscos adotado, se estes estiverem acima do nível tolerável, o perigo deve ser mitigado para que a etapa da atividade que está sendo avaliada seja permitida. Na análise devem constar as medidas de controle e uma nova análise considerando a redução de riscos proporcionada pelas medidas de controle. Um exemplo de análise pode ser encontrado aqui.

Avaliações de Risco feitas em planilhas eletrônicas são muitíssimo comuns e podem ser gerenciadas adequadamente com alguma dedicação. Dada a complexidade destas análises e a necessidade, em sistemas de gestão mais maduros, de se fazer um bom controle de documentos, é recomendado o uso de sistemas informatizados para se fazer estas análises. Existem boas opções no mercado, que incorporam metodogias consagradas e contam com todos os benefícios proporcionados pela Tecnologia da Informação em termos de facilidade de desenvolvimento das análises, controle de alterações e integração com outros sistemas.

Comunicação de Riscos

As avaliações de riscos atendem a pelo menos três objetivos: definir medidas de controle, documentar as análises conforme requisitos do sistema de gestão e fornecer subsídios para conscientizar os funcionários que executarão as atividades mapeadas. Destes, em minha opinião, o mais importante é o terceiro. Todos os funcionários devem ter conhecimento suficiente para que possam desempenhar suas atividades de forma segura.
Conforme visto no exemplo apresentado neste artigo, as avaliações de riscos, mesmo de atividades simples, tendem a ser bastante complexas e repetitivas. Por isto, apresentá-las da forma como foram desenvolvidas pela equipe responsável é contraproducente e pode gerar confusão pelo simples excesso e repetição de informações. O ideal é que seja apresentado um resumo, enfatizando as etapas de maior risco da atividade e os passos críticos que garantem a execução da atividade com segurança. Deve ser dedicado esforço a fazer com que as instruções resultantes sejam claras e, tanto quanto possível, visuais.
Após desenvolver estas instruções, elas devem ser formalmente apresentadas aos trabalhadores que desempenharão as atividades avaliadas. A forma usual de se fazer isto é através de treinamentos. Para estas situações, os treinamentos “on-the-job” costuma dar melhores resultados.

Conclusão

A análise de riscos é uma tarefa importantíssima dentro de um sistema de gestão de saúde e segurança. É também muitas vezes negligenciada, subestimada ou feita de forma muito superficial, ou pior ainda, feita somente para constar. Embora pareça “óbvia”, tem lá seus segredos e se faz necessário conhecer bastante seus princípios, aplicar uma metodologia lógica no seu desenvolvimento e dedicar esforços para sua conclusão, envolvendo a maior quantidade de pessoas com conhecimentos das atividades a serem avaliadas possível. Tanto quanto possível, as avaliações devem ser usadas para promover melhorias nos ambientes de trabalho, respeitando a hierarquia de controles prevista tanto na OHSAS 18001 quanto nas próprias Normas Regulamentadoras: Aplicação, nesta ordem, de Controles de Engenharia (ou Proteção Coletiva), Medidas Administrativas e Proteção Individual (EPI).
Tão importante quanto a realização das avaliações de risco e as melhorias promovidas pelas mesmas, é a comunicação dos seus resultados. Devem ser dedicados esforços para que todos os trabalhadores entendam não somente o que são avaliações de risco e como são feitas mas principalmente, o que devem fazer para desempenhar suas atividades de forma segura e saudável.

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Leonidas Brasileiro
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