Características de um bom serviço de Segurança do Trabalho

Introdução

Neste artigo serão apresentadas e discutidas algumas características de um bom departamento de Segurança do Trabalho. Antes que chovam críticas lembrando que as empresas de hoje são muito mais fluidas e não tem mais departamentos, afirmo que independentemente da denominação, TODAS as empresas têm ALGUÉM responsável por Segurança do Trabalho, seja o próprio SESMT – Serviço Especializado de Segurança e Medicina do Trabalho, previsto na NR-4 ou outra estrutura organizacional qualquer.

Influência da Segurança do Trabalho

Os resultados medidos pelos indicadores reativos (taxas de acidentes) são sempre inversamente proporcionais ao nível de Cultura de Segurança de qualquer empresa. Quanto mais alto o nível cultural, menor a tolerância ao risco e menos acidentes graves são registrados. O inverso é verdadeiro.
A melhoria da Cultura somente ocorre com esforços conscientes e focados na obtenção desta melhoria e estes esforços, obrigatoriamente patrocinados pela alta administração da empresa, necessitam do suporte técnico de uma boa estrutura de Segurança. Esta estrutura tem como responsabilidade coordenar os esforços para melhoria da Cultura de Segurança e garantir a conformidade legal.
As tarefas acima são difíceis e requerem que a estrutura de Segurança adotada tenha capacidade para executá-las.

Características Desejáveis

Ao longo do tempo trabalhando como gestor de Segurança do Trabalho pude observar que a maioria das empresas que tem um bom desempenho em SMS – Saúde, Meio Ambiente e Segurança, geralmente o faz através do suporte de uma boa estrutura organizacional dedicada ao assunto que tem algumas características bem definidas, que serão apresentadas no texto.

Conhecimento Técnico

O conhecimento dos assuntos técnicos é fundamental para que seja possível garantir a conformidade legal. Embora conhecimento técnico possa ser “comprado” na forma de consultorias ou assessorias, é necessário que seja compreendido internamente e para que isto ocorra é fundamental que a equipe interna detenha nível adequado de formação e experiência.

Compreensão do Negócio

O conhecimento técnico específico de Segurança do Trabalho é padronizado e relativamente simples, embora trabalhoso. Cabe à equipe responsável pela sua implementação interna ter a capacidade de traduzir este conhecimento em práticas que ajudem a melhorar o negócio de uma forma geral. Muitas vezes, as medidas de segurança, óbvias aos olhos dos profissionais de SMS, são vistas como meros entraves ao processo pelos gestores das demais áreas. Neste ponto entra a compreensão do negócio, que permite ao profissional de SMS avaliar as situações de forma sensata e propor práticas compatíveis com o negócio. Uma melhor compreensão do negócio permite também embasar melhor as decisões, pois o profissional de SMS enxergará a totalidade da operação e poderá propor melhores alternativas de soluções a situações de risco e inclusive alertar as demais áreas quanto a riscos não percebidos por estas com relação a perdas materiais e relacionamento com clientes, por exemplo.

Confiabilidade

Uma boa equipe de SMS é confiável. Esta confiabilidade deve ser percebida na acuracidade dos dados fornecidos e na discrição da comunicação.
Quanto aos dados, estes não devem precisar ser revisados após emitidos. Quando o são, coloca-se em cheque não somente os dados em si como todas as atividades desenvolvidas para que se chegasse a eles.
Em relação à comunicação, toda equipe ou departamento de SMS funciona como “antena” para todos os assuntos que são discutidos no ambiente de trabalho. Qualquer assunto, independentemente de sua origem, seja na rádio peão ou reuniões gerenciais, acaba chegando aos ouvidos dos profissionais de SMS. Quando a comunicação vem dos trabalhadores, costuma ser captada de forma informal, fornecida de forma fingidamente despretensiosa pela “rádio peão”. Estas comunicações costumam trazer um grau assustador de precisão em relação aos fatos e são fornecidas aos profissionais de SMS na esperança de que os mesmos “façam alguma coisa” para defender os trabalhadores. Quando a comunicação vem “de cima”, a preocupação é com seu possível vazamento e consequências que podem gerar em meio aos trabalhadores. Em ambos os casos, os responsáveis de SMS que as recebem devem tratá-las de forma discreta e absolutamente ética, protegendo as fontes e usando as informações somente nos ambientes em que foram geradas, jamais agindo como reles “leva e traz”.

Disponibilidade

Seja no chão de fábrica, via telefone ou em um escritório, as pessoas responsáveis por SMS devem ser acessíveis e disponíveis. Estas pessoas devem ter capacidade de se comunicar bem tanto com funcionários operacionais quanto com integrantes da direção da empresa.
Além da facilidade de comunicação é importantíssimo a disponibilidade de ser abordado a qualquer hora e desviar do seu caminho para atender a alguma demanda, como resolver um problema imediato ou deslocar-se até o ambiente de trabalho para inspecionar algo.
Ao manter esta disponibilidade de ser abordado e atender as pessoas a qualquer hora, aumenta-se a confiança, melhora-se a comunicação e cria-se uma verdadeira legião de seguidores e multiplicadores. Ter seguidores e multiplicadores é extremamente útil para solidificar a Cultura em uma empresa.

Resiliência

Uma parte significativa do trabalho do profissional se SMS é dizer NÃO. Muitas vezes é necessário contrariar os interesses imediatos de algum gestor ou mesmo da organização inteira em função de discordância quanto a aplicação de medidas de segurança, por exemplo. Nesta hora, é comum o gestor contrariado protestar e apresentar abundantes argumentos devidos e indevidos justificando sua necessidade. Dependendo da organização, a pressão recebida é intensa e vem acompanhada de acusações veladas de ineficiência, burrice e/ou intransigência. Neste cenário, é possível que profissionais mais vulneráveis acabem aceitando medidas de controle com as quais não concordam por intimidação, ignorância ou medo de perder o emprego. Por isto, a resiliência é importante pois permite que o profissional receba as pressões (devidas e indevidas), avalie os argumentos e mantenha-se firme em sua decisão. Esta decisão só deve ser mudada em função de fatos concretos e dados objetivos. Mudanças em função de exibições de autoridade embasadas somente em conversa ou argumentos informais – “a produção vai parar”, “sabe com quem está falando”, “quem é você para dizer isto” – costumam acabar muito mal e quando isto ocorre, o proponente da mudança entra em modo de autopreservação e some ou contradiz todos os argumentos que havia defendido com veemência anteriormente.

“Faro” ou Instinto

Coroando todas as características, existe uma que é absolutamente intangível, impossível de medir e fundamental para uma boa gestão de SMS: Instinto!
Instinto é definido no dicionário como “Impulso espontâneo independente de reflexão” ou “Tendência, aptidão inata”. Na prática, instinto se traduz como um desconforto em relação a alguma situação, uma sensação de que algo não está certo ou que algo está prestes a acontecer.
Impossível de quantificar e diferente para cada profissional, ele vai se refinando ao longo do tempo em função das experiências às quais cada pessoa é exposta.

Conclusão

Neste breve artigo, apresentamos algumas das características de um departamento (ou estrutura organizacional) saudável e atuante. Estas características, em companhia de muitas outras, são necessárias para um bom suporte à Cultura de Segurança e consequente promoção de bom desempenho.
Um ponto a ser considerado é a multidisciplinaridade, pois nem todas as características podem ser encontradas na mesma pessoa!

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