Aumento do Engajamento em Segurança através de GAMIFICAÇÃO

GAMIFICAÇÃO na gestão de Segurança

Neste artigo discutiremos maneiras de aumentar o engajamento em Segurança através do uso de práticas de GAMIFICAÇÃO.

Segurança é Percepção

Ao fim e ao cabo, Segurança é uma questão de percepção. A pessoa se SENTE segura. E este sentimento é diferente para cada ser humano. Ao analisarmos ambientes de trabalho com o olhar treinado de profissionais de segurança, é bastante comum nos depararmos com situações que consideramos absurdamente arriscadas, as quais os trabalhadores executando as atividades consideram normais e sentem-se plenamente confortáveis para exercerem suas tarefas.

O contrário também é verdadeiro. Há situações muito específicas em que os riscos só são reconhecidos por profissionais altamente especializados e não são sequer percebidos pelos profissionais de segurança com perfil mais generalista. Neste caso, os trabalhadores que reconhecem estes riscos específicos como sendo “óbvios”, tomam os profissionais de segurança por tolos. Isto ocorre, por exemplo, nas atividades envolvendo radiação ionizante, tais como radiografia industrial.

Regulamentação é Importante, mas Cultura é Melhor

Por esta razão é que a regulamentação da segurança do trabalho é tão importante. Boas regras estabelecem critérios objetivos de segurança. Importante notar que as regras podem ser estabelecidas através de Requisitos Legais – como as Normas Regulamentadoras – ou de regras internas das próprias empresas.

A aderência e o respeito às regras costumam ser problemas para as empresas. Violações, erros e equívocos são frequentes. Isto exige uma gestão inteligente que garanta que as regras sejam tão simples quanto possíveis e façam sentido para os trabalhadores que realizam as atividades. Além disso, as anomalias (violações, erros e equívocos) devem ser investigados e os procedimentos que sofreram as anomalias, corrigidos. Em artigo futuro será aprofundada a discussão sobre porque simplesmente punir e retreinar os trabalhadores envolvidos NÃO FUNCIONA.

A Cultura de Segurança é mais importante do que a regulamentação pois, a partir de uma certa massa crítica, independe de fiscalização.

Engajamento para Cultura de Segurança

A Cultura de Segurança de uma empresa influencia de forma determinante o grau de aderência e respeito a Regras e Procedimentos. Empresas que incentivam o engajamento dos trabalhadores em questões de segurança costumam ter melhores resultados do que aquelas que adotam práticas de “policiamento de segurança” e centralizam sua gestão em um departamento (SESMT, por exemplo).

Engajamento

Embora fundamental para uma boa Cultura de Segurança, o engajamento de trabalhadores não é fácil de ser obtido. Muitos não se sentem à vontade para colaborar por medo de se expor ou por se julgarem sem aptidão para tarefas relacionadas à gestão de segurança. Uma boa parcela dos trabalhadores simplesmente não quer se envolver nesses assuntos por se julgarem demasiadamente ocupados ou por pensar que atividades de segurança são exclusivas para os profissionais de segurança da empresa.

Outro fator que impede o engajamento de trabalhadores são as empresas que fazem somente o mínimo indispensável em termos de segurança. Elas simplesmente não oferecem maneiras dos funcionários se engajarem.

Paradoxalmente, mesmo nas empresas que oferecem meios de engajamento e incentivam a participação de trabalhadores na gestão de segurança, é difícil obter níveis altos de engajamento.

Como promover engajamento – lições dos videogames

A sabedoria tradicional de negócios recomenda o estabelecimento de metas claras, recompensas e reconhecimentos como formas de promover engajamento. Embora importantes, o resultado da aplicação destas recomendações não é, por si só, eficaz para promover engajamento.

Neste vídeo, Teresa Amabile, Diretora de Pesquisa da Harvard Business School, apresenta o Princípio do Progresso como o principal fator de engajamento de funcionários.

É mais ou menos como nos videogames. Jogos eletrônicos são reconhecidamente capazes de manter as pessoas engajadas e motivadas por horas e horas a fio. Como isso é possível? Pela combinação da sensação de progresso com recompensas e reconhecimento. Quando pensamos em um jogo de videogame, fica bem claro que o personagem progride ao longo do jogo, adquirindo mais poderes e recursos. Há recompensas e reconhecimentos também (vidas extras, pontos, fases secretas, etc.). É isto que mantém os jogadores tão interessados e engajados.

Esta é a lição importante a ser aprendida dos videogames, mas como fazer isto na gestão de segurança de uma empresa?

É aí que entra a GAMIFICAÇÃO

Regras do Jogo

Para que se obtenha engajamento em questões de segurança da mesma maneira que se têm em videogames, é necessário primeiramente que os trabalhadores entendam qual é o objetivo do “jogo”, quais suas regras e como se vence esse “jogo”.

Ao se pensar em como transformar a gestão de segurança em um jogo, convém dedicar algum tempo e esforço pare definir muito bem quais os objetivos a serem alcançados. Estes devem fazer sentido e, acima de tudo, terem metas SMART (Specific, Measurable, Achievable, Realistic and Timely). Em tradução livre, os objetivos devem ser:

  • Específicos;
  • Mensuráveis;
  • Atingíveis;
  • Realistas;
  • Temporais;

Ao estabelecer estes objetivos podem ser usados como base as obrigações legais às quais a empresa está sujeita, seus desafios de segurança e seus desejos de melhoria. Como exemplo, poderíamos ter:

Objetivo

Metas Smart

Reduzir Acidentes

X-Y acidentes até o final do ano

(onde X é a quantidade de acidentes do ano passado e Y é a redução que se deseja)

Validar Sistema de Gestão

Obter Certificação OHSAS 18001 até o final do próximo ano

Cumprir legislação

Cumprir Calendário da CIPA

A definição dos objetivos gerais deve ser feita de acordo com as características de cada empresa. A tabela acima é apenas um exemplo.

Meios de Participação

Cada trabalhador tem habilidades profissionais, maneiras de agir, disponibilidade de tempo e desenvoltura social diferente. Sendo assim, um bom programa de engajamento deve ter diversas formas de permitir participação dos funcionários.

Cada maneira de participar deve ter por sua vez, objetivos claros, recompensas, reconhecimentos e etapas que proporcionem a sensação de progresso que, de acordo com Teresa Amabile, embasam o engajamento. As formas de participação devem obrigatoriamente estar ligadas aos objetivos principais para que façam sentido.

Sendo assim, considerando a tabela acima, poderíamos desdobrá-la como:

Objetivo

Metas Smart

Forma de Participação

Reduzir Acidentes

X-Y Acidentes

– Sugestões de Melhoria / Comunicação de Riscos

– Participação em Treinamenntos

Validar Sistema de Gestão

Obter Certificação

– Participação em Análises de Riscos

Cumprir legislação

Cumprir Calendário da CIPA

– Participar da CIPA (% de presença em reuniões)

Novamente, chamamos a atenção para a importância de dedicar tempo e esforço para desdobrar metas e objetivos de forma inteligente. Isto fará toda a diferença. Caso os trabalhadores não entendam a correlação entre o objetivo geral, as metas específicas, as formas de participação e os progressos a serem obtidos, o engajamento será prejudicado.

Critérios de Pontuação

Para cada meio de participação deve ser atribuído uma pontuação específica para que se obtenha o efeito de satisfação imediata tal como ocorre nos videogames. Além disso é recomendado que se façam reconhecimentos públicos dos trabalhadores que mais se destacam em Segurança.

Acompanhamento

O progresso individual de cada trabalhador deve ser acompanhado. O funcionário se sente motivado em saber que há alguém olhando seu desempenho de forma estruturada e não somente em raras ocasiões de reconhecimento ou, pior ainda, somente quando é flagrado cometendo alguma falta.

Acompanhar o desempenho de cada funcionário é trabalhoso, consome tempo e demanda muita responsabilidade. Não se podem permitir injustiças. Se as regras são claras, a pontuação fornecida pela empresa deve ser igual à pontuação contabilizada pelo próprio trabalhador.

Para se fazer esta gestão as planilhas eletrônicas são eficazes até um certo nível de sofisticação do esquema de pontuação e para uma quantidade reduzida de trabalhadores. Na prática, podem funcionar bem até 4 ou 5 critérios de pontuação e cerca de 20 trabalhadores. A partir disso, o uso de planilhas torna-se impraticável. O ideal é usar algum sistema informatizado próprio para este fim.

Ranking

As pessoas são naturalmente competitivas. Se há um ranking, as pessoas desejam estar nas primeiras colocações e fogem das últimas posições. Se usado de forma assertiva e sem abusos, um ranking de segurança (com base em critérios bem aceitos por todos) é uma maneira saudável de manter o interesse e o engajamento de todos.

Final do Jogo

Assim como nos videogames, o “Jogo da Segurança” necessita de um fechamento. Quando há bom nível de engajamento, todos os trabalhadores desejam saber se os objetivos foram alcançados, quem foram os melhores “jogadores” e qual sua posição individual no ranking.

A comunicação deve ser bem feita ao longo do ano para divulgar os progressos e principalmente ao final do jogo para divulgar o resultado e promover a celebração!

Conclusão

A alguns leitores pode parecer que tratar um assunto sério como Gestão de Segurança de uma forma lúdica seja inadequado. Na verdade não é. Não fazê-lo é que é um tanto quanto hipócrita e MUITO improdutivo. Já passou a época em que os trabalhadores aceitavam ordens sem questionamentos. As empresas que ainda agem desta forma perdem profissionais a cada dia (pois eles se demitem por não gostar do ambiente de trabalho ou são mandados embora por serem flagrados em falhas) e desperdiçam recursos em atividades de fiscalização que só funcionam enquanto os trabalhadores executam suas atividades sob o olhar vigilante do fiscal. Assim que ele se afasta, as práticas de trabalho são relaxadas a níveis preocupantes.

Caso não ocorram acidentes ou incidentes, o desleixo com que são feitas jamais será descoberto. Nas situações em que ocorrem acidentes, é bastante comum que seja encontrado um culpado em vez de se melhorarem as condições de trabalho. Funciona por um tempo, enquanto a memória da punição aplicada ao trabalhador que cometeu a falha ainda está fresca na memória de todos. Assim que este período passa, tudo retorna ao nível anterior, com fiscalizações ineficientes e variação de comportamentos na presença do fiscal.

Nas empresas em que há objetivos claros, meios de participação e acompanhamento do engajamento, os comportamentos acabam por melhorar, reduzindo a necessidade de fiscalização. Isto gera um clima de trabalho mais leve e produtivo. O impacto sobre a Cultura de Segurança e sobre os resultados em geral é muito positivo.

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Leonidas Brasileiro
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