Ganhos Secundários em Acidentes de Trabalho

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Por: Elizama Nascimento (Psicóloga) e Leonidas Brasileiro (Engenheiro de Segurança)

Introdução

Ao investigar acidentes, percebe-se que alguns dos acidentados, ainda que estejam sofrendo por conta de ferimentos, parecem gostar em demasia da atenção que recebem. Estes trabalhadores estão tendo Ganhos Secundários com seu infortúnio. Tal fato, observado repetidamente ao longo dos anos em diversos tipos de indústrias, nos instiga a fazer uma análise mais profunda do assunto. A ponderação sobre este grave assunto é feita em parceria, lançando mão da expertise dos autores nos campos da Psicologia e da Gestão de Segurança.

Levando em consideração o comportamento humano, cada autor oportunizará ao leitor a percepção dos meandros das perdas e ganhos que envolvem um acidente de trabalho.

Conceitos Psicológicos

Transtorno Conversivo

Antes de iniciarmos é necessário possibilitar ao leitor a compreensão do que são ganhos secundários. O termo surgiu pela primeira vez em 1901 quando Sigmund Freud publicou “Fragmento da análise de um caso de histeria (O caso Dora)”. Entende-se que ganhos primários e secundários estão presentes principalmente no Transtorno Conversivo (TC). Nesta situação existem queixas de que funções motoras ou sensoriais são afetadas e que podem estar ligadas a condições neurológicas ou clínicas. Segundo o DSM-IV (Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais):

– estes sintomas não são uma criação consciente;
– está presente um considerável sofrimento;
– são sintomas difusos de difícil diagnóstico.

Estes são alguns dos itens que estão presentes na descrição deste transtorno e que mostra a complexidade de se chegar a um diagnóstico assertivo e de se realizar um tratamento adequado.

Síndrome de Burnout e Transtorno de Estresse Pós-Traumático

Necessitamos ainda entender que o ser humano é bem mais complexo do que possamos mensurar. Assim sendo, diagnósticos como Síndrome de Burnout também devem ser levados em consideração. Nesses casos, não se tratam de ganhos secundários conforme acepção deste artigo e sim de uma patologia grave que tem acometido boa parte dos profissionais submetidos a altos níveis de estresse. Neste contexto, ainda deve ser considerado o Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), em que traumas graves e inesperados ocorrem em menos de um minuto. Suas consequências, todavia, podem se arrastar durante toda uma vida.

Ganhos Secundários em Acidentes

Estabelecido o embasamento psicológico sobre o assunto, lançamos foco no tema central. Em algumas situações, passado o evento, há acidentados que continuam se valendo de lembranças do acidente para obter benefícios junto à empresa e gerar atenção e compaixão de seus gestores e colegas. Esta é a questão a ser tratada.

Durante o processo de um acidente, o sujeito (trabalhador acidentado) experimenta ser o centro das atenções. Esta situação temporária pode acionar gatilhos mentais inconscientes como os de se sentir amado, protegido, cuidado, por exemplo. Os ganhos de se manter nesta zona de conforto são imensuráveis. Mesmo quando exposto de forma desconfortável numa situação negativa e/ou doença, o trabalhador acometido pode lançar mão de mecanismos de defesa para não assumir responsabilidades ou até mesmo evitar a volta ao seu ambiente laboral normal.

Como Prevenir situações envolvendo “Ganhos Secundários”

Entenda a Situação

Situações em que ocorrem ganhos secundários não são sadias e precisam ser entendidas e tratadas pelas empresas com muita dedicação. Cabe ao Gestor de RH lidar com tais situações de forma equilibrada e assertiva, buscando soluções eficazes. Também é função do RH direcionar os colaboradores e gestores envolvidos para que não se inclinem a extremos. De um lado evitando que se estabeleça um contexto de codependência e do outro impedindo que se instale o contexto da desumanidade. Há que se salientar que, no segundo caso, existem gestores cujas estruturas de personalidade não toleram “coitadinhos” e, por vezes, tendem a serem cruéis em suas ações em situações como as apresentadas neste artigo.

Não Permita Injustiças

O efeito negativo da atenção colateral indevida requerida pelo trabalhador acidentado descrito neste artigo é enfatizado quando o trabalhador se sente vítima de algum tipo de injustiça. Este sentimento pode vir tanto da forma como a empresa trata os trabalhadores de forma geral quanto surgir em função da forma como algum acidente específico está sendo tratado.

Para que se minimize este efeito, é importante que, em primeiro lugar, o clima organizacional da empresa seja sadio. Tais ambientes se caracterizam pela valorização e pelo respeito às regras e por considerarem a todos de forma igualitária, tanto na hora de se obter recompensas quanto de sofrer punições.

Quanto às tratativas específicas relativas a acidentes, é importante que estes sejam fielmente registrados e investigados com rigor e de maneira imparcial. É fundamental que a investigação seja focada em descobrir as causas do acidente e não em encontrar culpados. A diferença entre estes dois enfoques é brutal, ainda que na cabeça de alguns gestores se confundam no quesito “responsabilização”. Segundo esta interpretação equivocada e bastante comum, “se houve um acidente, é porque alguém descumpriu as regras”. Esta discussão já foi apresentada no artigo “Investigação de Acidentes e Incidentes“.

Conclusão

Um dos fatores que compete ao RH é propiciar saúde mental aos colaboradores. Quando se é entendido e diagnosticado por profissionais competentes que o acidentado está tendo ganhos secundários com uma situação de tamanha gravidade, deve-se lançar mão de recursos psicossociais e políticas de segurança laboral. Caso a sua empresa não detenha conhecimento necessário para dar cabo de tal querela, contamos com os conhecimentos necessários e equipes de profissionais experientes prontos a lhes atender.

Contatos:

Elizama Nascimento – www.plenodh.com

Leonidas Brasileiro – www.leonidasseg.com.br

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