Gestão de Segurança em Tempos de Recessão

Não há mais como negar que o país se encontra em recessão.

Tenho visto apatia, demissões e preocupações por todos os lados. Este ambiente recessivo representa um desafio extra para os profissionais de segurança por uma série de razões. Procurarei apresentá-las e discutir alternativas sobre como abordá-las e tratá-las.

A primeira razão pela qual a gestão de segurança fica comprometida durante períodos recessivos é porque os trabalhadores tendem a ficar mais preocupados e dispersos, tornando-se mais suscetíveis à acidentes. Todos percebem o ambiente em volta, vêem a preocupação dos gestores e as dispensas que infelizmente ocorrem. Em suas cabeças, o pensamento mórbido de que “serão os próximos” não os deixa trabalhar em paz e as taxas de ocorrências acabam aumentando principalmente devido a acidentes cuja causa gira em torno de distração. Como lidar com esta situação? Transparência, honestidade, comunicação franca e aberta e tratamento igualitário, sem favoritismos de qualquer espécie. Os trabalhadores costumam ter entre eles diversos formadores de opinião. Especialmente a estes deve ser explicado de forma clara o que está acontecendo, quais as razões das dispensas e reduções, qual o critério de escolha daqueles que infelizmente poderão ser dispensados e quais cuidados e benefícios serão garantidos a estes trabalhadores. Muitas vezes os trabalhadores intuitivamente já sabem e concordam com estes critérios.

A segunda razão pela qual o desafio aumenta é porque as condições do ambiente de trabalho, das ferramentas e equipamentos acabam por deteriorar-se. Esta deterioração ocorre por contenção de custos. Intervenções de manutenção preventiva são reduzidas ao mínimo possível, corretivas somente são feitas quando “a produção vai parar” e preditivas somente ocorrem pois não fazê-las nos equipamentos que assim o exigem é tolice e pode custar fortunas. Pequenos reparos tais como substituir fios desencapados, trocar peças quebradas são simplesmente esquecidos. As condições de limpeza e organização deterioram-se pela redução das equipes de limpeza e pela própria apatia das pessoas. Tudo isto contribui para formar a “tempestade perfeita” da falta de segurança. Equipamentos sem manutenção quebram mais, ambientes sujos são mais propensos a provocar escorregões e quedas e pequenos problemas como fiação exposta e partes quebradas irritam e afrontam os trabalhadores. Tudo isto pode gerar acidentes de gravidades diversas, com ou sem ferimentos. Embora os recursos disponíveis sejam imperativamente reduzidos, pois, afinal, a prioridade é a própria sobrevivência da empresa – e sem hipocrisia, sem empresa NÃO TEM empregos – é necessário que as rotinas de manutenção e limpeza sejam mantidas. Muitas vezes, os próprios trabalhadores compreendem a situação e preferem ser utilizados em mutirões de limpeza e arrumação a permanecer ociosos e imaginando o momento em que serão desligados. Novamente, comunicação e transparência são importantíssimas.

A terceira razão é que as próprias equipes de segurança ficam ameaçadas. Como qualquer outra área da empresa, será solicitada a reduzir custos e quantidade de profissionais. Reduzir gastos é relativamente fácil: controla-se melhor a distribuição de EPIs, cancelam-se campanhas de comunicação (que sempre são caras), simplifica-se a SIPAT, postergam-se melhorias de eficiência e dispensam-se consultorias não essenciais. O problema piora quando é solicitada a redução da equipe. Na cabeça de muitos gestores (RH, Diretoria, etc.) que imaginam a atividade de gestão de segurança de uma forma romântica (lugar de técnico é no chão-de-fábrica, junto aos trabalhadores o tempo todo!), a quantidade de profissionais do SESMT deve ser aquela apresentada na tabela apresentada na NR4. Embora bem intencionada, a NR4 é antiquada e irreal. Não mais é possível ter uma gestão de segurança que atenda a todas as expectativas de sistemas de gestão, demandas de clientes, atendimento a requisitos legais e corporativos e etc. com a quantidade de profissionais “exigida” pela NR4. É muito pouco. Faz-se necessário lutar pela equipe com fatos e dados. É preciso elencar TODAS as atividades realizadas e – sim – CORTAR aquelas que sejam supérfluas. Ainda assim a demanda supera em muito a quantidade de profissionais necessários conforme a NR4. Cabe ao gestor de segurança manter seu espaço de forma inteligente. Mesmo que isto signifique “deixar irem-se os anéis para preservarem-se os dedos”. A todos os profissionais de segurança e saúde, o recado é simples: sejam os melhores profissionais possíveis, tornem-se indispensáveis, sejam conhecidos pelo nome por todos, aumentem seu “network” dentro e fora da empresa. E sejam totalmente éticos.

Há uma quarta razão muito desagradável que provoca o aumento da dificuldade de se fazer gestão de segurança em momentos recessivos. Trata-se do mau uso do conhecimento sobre segurança e regras trabalhistas por parte de trabalhadores que tentam criar ou se aproveitar de situações que lhes garantam benefícios, como a famosa “estabilidade” ou benefícios como adicionais de insalubridade ou periculosidade. Em momentos de recessão (que felizmente SÃO MOMENTOS, pois passam) é necessário ter atenção redobrada. Infelizmente podem haver situações de acidentes “forjados”, funcionários procurando expor-se propositalmente a riscos não previstos para suas funções e atividades em busca de benefícios (insalubridade ou periculosidade) ou mesmo provas que possam embasar o questionamento em juízo destes benefícios mais tarde. E ainda há a CIPA. A estabilidade de dois anos proporcionada pela CIPA atrai a todos: candidatos que realmente querem contribuir com a segurança de todos e candidatos que somente querem a estabilidade e mais nada. Não há como impedir inscrições, a entrada na CIPA é garantida por quantidade de votos e normalmente, os funcionários mais salientes (aqueles que “enfrentam” a empresa), atraem  grande quantidade de votos. Nem sempre acabam agindo em prol da segurança e se contentam em abusar do benefício da estabilidade. O que fazer? Tratar todas estas questões com muita seriedade, interpretando tudo ao pé da letra e com bom embasamento jurídico quando necessário (sim, tem que envolver advogados, pois ELES de fato entendem as leis que são invariavelmente mal escritas e dúbias – acho que de propósito). Quaisquer decisões quanto a benefícios devem ser embasadas em LAUDOS (de preferência, EXTERNOS). Sobre o processo da eleição da CIPA não pode pairar dúvida (prazo respeitado, quantidade e  contagem de votos, comunicação ao sindicato, …). Quanto aos acidentes, todos devem ser investigados rigorosamente usando-se técnicas consagradas e, caso surjam dúvidas quanto à idoneidade dos mesmos, o RH e até mesmo o jurídico da empresa deve ser envolvido para que se tomem as providências devidas. Em caso de irregularidades (“simulação”) em acidentes, DEVEM ser tomadas providências, pois não fazê-lo transmite a mensagem errada de que vale a pena ser “esperto”, que a empresa é “trouxa” e tolera tais abusos. É necessário que tudo esteja muito bem documentado pois nestes casos os Sindicatos são envolvidos. Bons Sindicatos não defendem maus trabalhadores.

Concluindo, se por um lado um ambiente recessivo representa desafios adicionais para uma boa gestão de segurança, por outro lado estes mesmos desafios fazem necessariamente com que ocorra um amadurecimento na forma de gestão e nos próprios profissionais envolvidos. A forma de “sofrer menos” em uma situação destas é: manter sua integridade; ser profissional ao extremo; saber se comunicar de forma transparente, honesta e assertiva e MANTER A CALMA. Infelizmente não é possível passar por momentos de crise sem alguns arranhões. Necessariamente o profissional que passa por uma crise sai mais melhor e mais sábio.

 

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Leonidas Brasileiro
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