Possíveis Lições do Acidente da LaMia

O Acidente

O terrível acidente ocorrido com o voo da LaMia que levava o time de futebol da Chapecoense para Medellín ainda está na memória de todos e a investigação oficial ainda não foi concluída. Acidentes aéreos demoram para ser analisados. É necessário avaliar todos os fatores, ponderar tudo e emitir conclusões assertivas sobre o que, de fato, causou o acidente. Estas conclusões devem conter as possíveis lições a serem aprendidas do acidente.

Ainda que corramos o risco de ser parciais e injustos, os fatos noticiados pela mídia e a experiência que temos em investigação de acidentes e gestão de segurança nos permite opinar sobre o assunto. Assim podemos oferecer um panorama das causas do acidente e das lições a serem aprendidas, com aplicações em todos os tipos de negócios.

O Avião

lamia_p4-lor_at_egpf_oct_2013
LaMia Plane

A aeronave AVRO RJ85, de origem inglesa, foi projetada para operar em voos regionais e em pistas curtas e/ou com infraestrutura deficiente. Sua configuração de asas altas com motores pequenos e pouca distância entre o solo e a fuselagem permite que sua área útil interna seja bem grande. A configuração dos bancos é a mesma de aviões maiores como Boeing 737 ou Airbus A320: 6 poltronas por fileira. A capacidade de transportar muitos passageiros em um avião regional da mesma forma que em um grande jato certamente era um de seus diferenciais. O uso de quatro motores tipo turbofan, no entanto, fazia com que o consumo de combustível fosse significativamente mais alto que seus concorrentes.

Um dos principais competidores do AVRO RJ85 era o ATR-72, de origem franco-italiana e bastante comum em voos regionais da Azul Linhas Aéreas. As hélices do ATR fazem com que pareça um avião “antiquado” na comparação com o AVRO. O que ocorre na verdade é justamente o oposto. Esta configuração de motores é bem mais econômica que os quatro pequenos motores turbofan do AVRO. Além disso, o ATR usa somente dois motores e é mais esguio que o AVRO. Isto lhe confere uma melhor aerodinâmica e menor consumo. A cabine do ATR é menor, com uma configuração de 4 poltronas por fileira, mais simples que seu concorrrente.

O avião da LaMia, prefixo CP2933, foi construído em 1999. No que se refere a aviação, uma aeronave com 17 anos de uso é perfeitamente aceitável desde que esteja com a manutenção em dia. Não há evidências de que havia irregularidades na manutenção desta aeronave, até o momento.

A Causa Imediata

Conforme as últimas notícias, o avião da LaMia aparentemente caiu por falta de combustível.
A distância total que a aeronave poderia percorrer era idêntica à distância do voo em questão, com pouquíssima margem de segurança.

Conforme áudio da conversa entre a torre de controle e o piloto do avião, o avião da LaMia foi obrigado a fazer sobrevoos adicionais em função de outra aeronave que tinha preferência para o pouso. Isto fez com que fossem consumidas todas as reservas de combustível. Ainda faltavam 8,2 milhas para a pista. Não havia mais nada que o piloto pudesse fazer enquanto o avião perdia altura e se chocava com as árvores e o solo.

A Causa Básica

A falta de combustível é consequência de uma outra causa mais profunda. Em qualquer acidente devemos sempre procurar além da causa imediata por aquela causa que, eliminada, evitaria que o acidente acontecesse: A CAUSA BÁSICA.

Diz-se que grandes acidentes são causados por uma combinação de fatores causais (e de fato, o são). Ainda assim, sempre há uma causa mais importante que as outras. Esta é a CAUSA BÁSICA.

No caso presente, analisando de forma superficial os fatos apresentados pela imprensa, a causa básica parece apontar em duas direções:

– Complacência
– Excesso de Tolerância ao Risco

Complacência

No âmbito da Gestão de Segurança, COMPLACÊNCIA é a atitude de se conviver com condições precárias, de aceitar padrões inferiores de segurança.

Aparentemente esta era uma condição comum nas operações da LaMia. Logo após o acidente surgiram vários relatos de que voar com pouquíssimo combustível era uma prática comum nesta empresa.

As razões para a complacência normalmente estão ligadas ao excesso de autoconfiança, que leva ao sentimento de que “nada vai acontecer comigo”.

Tolerância ao Risco

A atividade de transporte aeronáutico é extremamente regulamentada justamente porque as consequências de acidentes são potencialmente catastróficas. Para que qualquer voo seja realizado é exigido um Plano de Voo e que os profissionais sejam capacitados e estejam aptos a voar, em termos de saúde e condições físicas, incluindo descanso. Além disso, a manutenção da aeronave deve estar em dia e as condições meteorológicas devem estar, se não ideais, no mínimo, aceitáveis para o voo.

Todas estas são medidas de controle de riscos que devem ser seguidas à risca pelas empresas aéreas. No caso deste voo da LaMia, a se considerar o que foi veiculado nos telejornais, no mínimo o Plano de Voo estava irregular. A autonomia de voo não foi corretamente considerada. O destino final constante no plano também diferia da intenção do comandante da aeronave. O plano dizia que a aeronave deveria ter partido de Cobija quando na realidade partiu de Santa Cruz de La Sierra.

Ao que tudo indica, todas estas irregularidades foram cometidas conscientemente pelos profissionais da empresa aérea. Isto demonstra um altíssimo “apetite para o risco” tolerado pela alta direção da empresa. Em jargão comum do mundo dos negócios, se diz que “quanto maior o risco, maior a recompensa”. A busca por economias e melhores lucros (ou sobrevivência da empresa), neste caso, se revelou perigosa demais.

Medidas Preventivas

As medidas preventivas aplicáveis à atividade de transporte aéreo são exaustivamente detalhadas, com responsabilidades bem específicas, como mostramos nos parágrafos a seguir.

A gestão de Segurança fica a cargo da empresa aérea e das autoridades de controle de tráfego aéreo dos países por onde o voo passou. Manter a aeronave em boas condições de voo, fazer bons Planos de Voo e garantir que a equipe está capacitada e apta para voar são atribuições da companhia aérea. Checar os planos de voo e exercer fiscalização rigorosa sobre as empresas e aeroportos é atribuição das autoridades responsáveis pelo transporte aéreo.

A única possibilidade de controle possível ao contratante do voo é a escolha do prestador de serviços. No caso de transporte aéreo, esta escolha é bem complexa. É muito difícil diferenciar as companhias aéreas em termos de segurança. Como se considera que esta é uma atividade altamente regulamentada, parte-se do princípio de que, do ponto de vista de segurança, todas as empresas são iguais. Sendo assim os diferenciais de escolha reduzem-se a disponibilidade do voo, tipo de serviço oferecido e principalmente preço. Considerações sobre segurança são simplesmente tomadas como garantidas.

Conclusão

As possíveis lições que se pode tirar deste trágico acidente são, em nossa opinião:

– Deve-se ESCOLHER qualquer prestador de serviços de forma esclarecida com base em critérios que incluam questões de segurança;

– É necessário EXIGIR que as autoridades cumpram com rigor suas responsabilidades de fiscalização e controle;

NÃO SE DEVEM ACEITAR desvios e “jeitinhos” de qualquer espécie, por mais tentadores que sejam em termos de comodidade e economia de tempo e dinheiro. Regras, principalmente em atividades de transporte ou outras que apresentem riscos significativos, são baseadas em histórico de acidentes. Nenhuma delas existe por acaso ou capricho de alguém.

Os três pontos acima são aplicáveis a qualquer tipo de atividade e ajudam a prevenir acidentes. Aplique-os e ajude a garantir que novas tragédias deste tipo jamais aconteçam novamente.

Compartilhe seu amor
Imagem padrão
Leonidas Brasileiro
Artigos: 72

Deixar uma resposta