Quando vi a morte no trabalho pela primeira vez

Recentemente li um livro do Todd Conklin: “When The Worst Accident Happens: A field guide to creating a restorative response to workplace fatalities and catastrophic events” – “Quando O Pior Acidente Acontece: Um guia de campo para criação de uma resposta restaurativa para fatalidades no local de trabalho e eventos catastróficos” e lembrei de quando me deparei com a primeira fatalidade em um local de trabalho a muitos anos atrás.

Tratar com fatalidades é algo difícil para todos. No papel de profissional de segurança, a ocorrência da morte de uma pessoa em função do seu trabalho é triste, frustrante e gera uma sensação muito ruim de que poderíamos ter feito algo a mais, ou que algo ou alguém poderia ter percebido o risco etc.

Todd Conklin aborda muito bem as questões principais sobre a ocorrência de fatalidades no local de trabalho ao apontar que os fatores que causam mortes no trabalho são vastos, diversos, implacáveis e às vezes difíceis de identificar e controlar. As empresas e seus profissionais (inclusive os de segurança) fazem o melhor que podem para cumprir suas atividades da forma mais eficaz e segura possível.

Às vezes, raramente, o equilíbrio entre eficácia da operação e segurança com que determinada tarefa é executada é desfeito e ocorrem acidentes. Estatisticamente falando, pouquíssimos dos acidentes ocorridos revelam-se fatais. Quando estes ocorrem, abalam toda a organização em que estão inseridos. Além do trabalhador morto ao fazer sua atividade, são criadas diversas vítimas secundárias: em primeiro lugar sua família, depois, seus colegas, amigos, chefes, profissionais de segurança, o empregador e a sociedade como um todo.

Cada uma dessas vítimas secundárias tem suas dores e, por vezes, seu sofrimento é estendido e aumentado pela forma inadequada como a questão da ocorrência do acidente em si e o fato de ter havido uma morte no local de trabalho são tratados. O livro aborda muito bem estas questões e propõe uma forma mais saudável e humana de tratar o assunto, com o intuito de restaurar o moral de todos e retornar a operação à sua normalidade, ao mesmo tempo em que se buscam maneiras de prevenir outras ocorrências severas no ambiente de trabalho.

Eu queria ter lido esse livro antes, muito antes de ter tido que tratar de fatalidades no ambiente de trabalho. Queria, mais do que isso, jamais ter tido essa experiência. Mas eu tive. E não foi boa. Acho que eu poderia ter reagido de forma mais positiva e assertiva, mas fiz o melhor que pude à época, com os conhecimentos e recursos de que dispunha. Ainda assim, tive muitos aprendizados com esse evento triste e temido por todos os profissionais de segurança.

Listo abaixo alguns desses aprendizados, ainda, muitos anos depois, recheados com alguma emoção.

O que aprendi sobre a morte no trabalho

Aprendi que metas conflitantes sempre são vencidas por aquela que mais se alinha com as prioridades da empresa. Quando a meta do trabalho seguro é vencida, a empresa aumenta sua possibilidade de acidentes (possibilidade essa, que nunca é zero, não importa quão forte sejam defendidos os slogans de “Zero Acidente”).

Aprendi também que falar em segurança é fácil e barato. Agir com segurança custa caro à primeira vista e requer liderança e coragem para pagar esse preço. Ainda assim, recursos que costumavam ser negados antes, sempre aparecem rápida e abundantemente após um acidente grave ou uma fatalidade. Cabe ao bom gestor insistir e exigir antecipadamente por esses recursos.

Aprendi que nem sempre um acidente custa caro demais para uma empresa. Às vezes, esse custo é absorvido por outros e nada muda além de um breve período de tristeza e de maior cuidado para fazer as atividades. Eventualmente, tudo volta ao “normal”, caso não exista uma firme decisão da empresa e apoio decisivo de sua diretoria para mudar a situação.

Ainda antes do Todd Conklin me apresentar seus conceitos através de seu livro, aprendi que existem outras vítimas nos acidentes fatais, além dos próprios acidentados. Essas vítimas secundárias podem ser os colegas do trabalhador morto ou os profissionais de segurança que pouco puderam fazer para evitar uma tragédia.

Aprendi também a olhar, como profissional, com muito cuidado para como as empresas agem em termos de segurança. O que é falado importa menos, muito menos do que as ações vistas no ambiente de trabalho. Principalmente quando estas são feitas ou toleradas pelas lideranças.

Aos profissionais de segurança que porventura leiam esse texto, ofereço meus aprendizados e oro para que não tenham que jamais enfrentar fatalidades no ambiente de trabalho.

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Leonidas Brasileiro
Leonidas Brasileiro
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