Regras Não São Controles de Riscos

Regras Não São Controles

Uma ideia interessante

Há alguns meses atrás me deparei com este artigo interessantíssimo de Ron Gantt (SCM Safety), sobre a eficácia dos Controles Administrativos sob a ótica da mitigação de riscos, para o qual solicitei permissão ao mesmo e faço uma resenha:

Em sua análise, ele apresenta a Hierarquia de Controles e explica que a maioria dos controles atuam diretamente sobre o agente de risco.

Hierarquia de Controles
Hierarquia de Controles

Dá como exemplo Ventilação (um controle de engenharia) que reduz a quantidade de contaminantes em um ambiente. Desta forma o risco é reduzido. Em outro exemplo, o uso de cintos de segurança com trava-quedas reduz o efeito de uma potencial queda, impedindo que um trabalhador caia com força suficiente para se ferir.

Gestão direta de Riscos

Ainda conforme o autor, a eliminação ou modificação de determinado processo permite que determinado risco seja eliminado. Agregando ao artigo original, podemos dar como exemplo a substituição de um processo de corte com maçarico operado manualmente por outro a laser, com maquinário dotado das devidas proteções. Tanto o risco de exposição a gases e vapores quanto o risco de queimaduras são eliminados.

Gestão Indireta de Riscos

Os controles administrativos, por outro lado, são interessantes pois não atuam diretamente sobre o agente que apresenta o risco. No exemplo do autor, um procedimento que exija isolação de energias perigosas antes de uma intervenção de manutenção não tem efeito direto sobre a energia em si. O procedimento existe para influenciar o trabalhador que executará a tarefas próximo a fontes de energia perigosa.

Uma interpretação válida

Esta interpretação é válida para todos os outros tipos de controles administrativos (regras, procedimentos, regulamentos, treinamentos, auditorias, etc.). Estes controles não servem para gerenciar riscos de fato. Eles servem para controlar pessoas. São as pessoas que controlam os riscos.

Em uma interpretação gráfica, a maioria dos controles atuam de forma quase linear sobre os riscos. Uma vez que o controle é implementado, o risco é reduzido

Mitigação Direta
Mitigação Direta

Controles administrativos, em contraste, tem uma variável intermediária, a pessoa.

Mitigação Indireta
Mitigação Indireta

Para ilustrar este ponto, imagine que a pessoa não ajuste o seu desempenho conforme exigido pela regra, seja por desconhecimento ou porque a regra é impossível de seguir. Neste caso, não haverá redução do risco em função da regra.

O fato de que regras e outros tipos de controles administrativos não atuam diretamente sobre os riscos e sim de que são as pessoas que o fazem parece meio óbvio. Muitos devem estar pensando “e daí?”

A variável pessoal

O que acontece é que esta simples variável intermediária, a pessoa, que pode parecer um ponto trivial na discussão, muda tudo. A mudança é tão profunda que se você tratar controles administrativos (regras, regulamentos, políticas, procedimentos, treinamentos, auditorias, inspeções, etc.) da mesma maneira com que tata qualquer outro tipo de controles, certamente você terá problemas. Como disse o famoso astrofísico Neil deGrasse Tyson no Twitter

“Em ciência, quando o comportamento humano entra na equação, as coisas tornam-se não lineares. É por isso que Física é fácil e Sociologia é difícil.”

A título de ilustração, seguem algumas implicações referentes a regras baseadas na ideia de que controles administrativos não controlam riscos, e sim de que pessoas é que os controlam:

  1. A perspectiva de quem deve seguir a regra é a única que importa. Para que uma regra seja eficiente ele precisa fazer sentido para as pessoas que devem segui-la. Com frequência nós vemos uma violação de uma regra e a primeira ideia é que a pessoa é que está errada porque a regra faz perfeito sentido para nós. Mas nós nos esquecemos que a nossa perspectiva não importa. Não somos nós que temos que seguir a regra. Isto leva ao segundo ponto.
  2. Dado o quanto nós confiamos em regras (e similares), nós deveríamos dedicar mais atenção para entender a perspectiva de nossos trabalhadores. Muito da segurança é feito com base em criar um padrão e assegurar que todos o seguem. Mas, de acordo com o primeiro ponto, talvez nós devêssemos compreender melhor as pessoas que trabalham para nós. Como é sua visão de mundo? O que faz sentido para eles? O que eles vêem como desafios que inibem sua capacidade de fazer um trabalho seguro? Eles pensam que estabelecer uma nova regra fará com que trabalhem melhor? O atributo mais importante de um profissional de segurança é a empatia e nós precisamos praticá-la neste caso fazendo boas perguntas.
  3. Ao fazer isto nós percebemos que as regras são frequentemente usadas de maneiras distintas daquelas que nós pensamos – são mais como diretrizes do que regras. É bem comum ouvir pessoas falarem sobre alguém que violou uma regra e apontar para outros e dizer “eles não têm problemas em seguir a regra”. Mas frequentemente não há evidências para embasar esta afirmação. Tudo o que realmente sabemos na maioria das vezes é que não há evidências de que pessoas estejam violando regras. Outros podem ser melhores em encobrir suas faltas, ou, mais comumente, eles podem não violar a regra, mas certamente não a estão seguindo. Pense sobre isso, conforme as pessoas ficam melhores em executar certa tarefa, elas frequentemente as realizam sem nem pensar muito nelas. Isto significa que a regra escrita não está mais sendo muito útil para melhorar mais seu desempenho. Muitas vezes acontece justamente o oposto, conforme regras são colocadas em prática sem mostrar às pessoas como segui-las. Em alguns casos os trabalhadores encontram maneiras de executar suas tarefas apesar da regra e não por causa dela.
  4. Então nós vemos que chamar a isto de “Controle” é enganoso. Uma regra não tem o poder de controlar nada porque na verdade não é nada mais do que uma “boa ideia” na melhor das hipóteses. Provavelmente é melhor pensar nelas como “fatores de influência” ou “diretrizes”. Qualquer pessoa que pense que pessoas podem ser controladas facilmente obviamente jamais estudou história ou ciências sociais

Análise e Conclusão

Nada disso significa que regras e outros controles administrativos não são importantes e que eles não tem lugar na forma como uma organização é gerenciada. Na verdade, tudo isto serve para afirmar que não se pode ignorar o papel central das pessoas na gestão de riscos. Isto não é algo ruim. De fato, dado o quanto se confia no comportamento humano nós deveríamos nos maravilhar sobre quão eficientemente as pessoas gerenciam riscos. Na maioria das vezes nenhum acidente acontece e as tarefas são concluídas no prazo.

O papel da liderança

Então qual é o papel dos líderes em uma organização? Aqui estão alguns pontos a considerar e discutir:

  • Regras devem ser recursos para ação. Isto significa que elas devem permitir o desempenho, isto é, ajudar as pessoas a saberem o que devem fazer para atingir seus objetivos. Pergunte a seus trabalhadores quais regras os ajudam a fazer seu trabalho e quais eles têm que meramente contornar para fazer seu trabalho. Isto dará pistas sobre onde as regras agregam valor e onde elas impedem o desempenho.
  • Tenha regras para suas regras. Ron Gantt publicou um artigo sobre este assunto no passado. Verifique o original em inglês para mais detalhes. De forma bem resumida, as regras devem ser tão simples quanto possível, baseadas em feedback de usuários e atualizadas conforme necessidade. É importantíssimo treinar os trabalhadores e documentá-las de forma adequada.
  • Tente fazer uma auditoria de apreciação em uma regra ou procedimento. Isto requer usar uma lente de auditor diferente. O foco deve ser identificar e verificar como o trabalho realmente acontece em um dado processo sem julgamentos. Escolha uma regra ou procedimento em sua organização e siga seu fluxo pela organização. Comece pelo local onde ela foi desenvolvida (e por que) e vá até o local onde ela deve ser implementada. Detenha-se tempo suficiente para revisar como as pessoas adotaram esta regra em sua maneira de trabalhar. Está conforme previsto? Por que ou por que não? Lembre-se do que David Woods diz – sistemas funcionam conforme foram projetados, mas raramente como pretendido. O que a forma como uma regra ou procedimento foi implementada diz sobre como seu sistema de gestão foi projetado e está funcionando?

2 comentários em “Regras Não São Controles de Riscos

  1. Timóteo Responder

    óptimo artigo, Leonidas; infelizmente no meu pais o gerenciamento de riscos ainda e uma área que necessita muito de ser incontida nas empresas mineiras como algo importante para salvaguardar a integridade destas, por isso estou engajado em produzir um trabalho cientifico nessa área, e os artigos estao ajudando bastante e espero que possamos interagir mais sobre este assunto

    • Jose Leonidas Autor do postResponder

      Obrigado, Timóteo!

      Fico à disposição para conversarmos!

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