Segurança Magenta Riddim?

Recentemente me deparei com um video muito interessante no Youtube: Magenta Riddim, do produtor francês DJ Snake. Às vezes ouço músicas aleatórias lá, dos mais diversos ritmos, menos pagode, funk e sertanejo, que não suporto muito.

O vídeo é engraçado. Não dá para entender a letra, mas a música é boa, eletrônica.

O que me chamou a atenção foi a historieta do vídeo, em que uma equipe de bombeiros altamente treinados e competentes vai em direção a um incêndio de grandes proporções. No caminho, são celebrados pelo povo nas ruas e fazem ações heroicas para salvar pessoas, inclusive tirando algumas de maus caminhos.

Ao chegar no local do incêndio, o combate é feito de forma fantástica, com galhardia. Todos os bombeiros têm chance de demonstrar suas habilidades e cumprir o propósito para o qual foram preparados e dedicam suas vidas: apagar incêndios.

No final da cena de combate ao incêndio, o bombeiro menos graduado e menor está fazendo o rescaldo quando encontra indícios de que o fogo foi provocado por seu comandante altamente condecorado. Ele fica em choque e não faz nada. Na cena seguinte ele participa, a contragosto, da cerimônia em que toda a equipe e o comandante recebem mais uma homenagem das pessoas agradecidas pelo heroísmo demonstrado. O comandante e os outros bombeiros ficam em êxtase com as honrarias recebidas. É mostrado o contraste entre o olhar doentio do comandante quando risca o fósforo para iniciar o incêndio e o olhar perplexo do pequeno bombeiro, incrédulo e sem ação frente à situação absurda.

Guardadas as devidas proporções, fiquei a pensar no papel dos profissionais de segurança e na gestão de segurança em geral. Segurança é uma missão nobre, respeitada e celebrada pela sociedade. Os profissionais de segurança desfrutam de reconhecimento nas organizações e são ouvidos. Quando não são ouvidos voluntariamente, o são por terem respaldo legal. De uma forma ou de outra, sua influência é significativa.

Com esse poder de influência, penso que algumas vezes, esses profissionais se comportam como o comandante do video. Não se chega ao ponto de incendiar coisas literalmente, mas a imposição de regras sem sentido ou fora de contexto, a exigência de comportamentos “corretos” e reforço de tabus, falácias e mitos, cria situações que visam aumentar o poder da função Segurança impondo trabalhos que não agregam valor ao produto ou serviço final das empresas.

Segurança é necessária em qualquer contexto, os profissionais de segurança são importantíssimos e a gestão de segurança é uma necessidade em qualquer negócio. No entanto, lembro de uma citação do livro “Se Você Não Consegue Medir… – Talvez Você Não Deva”, do Carsten Busch, em que ele coloca que

“Segurança é como sal. Você precisa da quantidade certa para deixar a comida gostosa, ponha muito e ela ficará com um gosto horrível”.

Carsten Busch

Todd Conklin fala algo parecido em suas palestras, entrevistas e podcasts quando diz que

“Os trabalhadores trabalham de forma segura o suficiente, mas não mais do que isso”.

Todd Conklin

Ambas as citações tratam dos excessos cometidos em nome da segurança, aumentando a ocupação das pessoas com atividades “de segurança” sem realmente aumentar o nível de segurança das operações.

Nós, profissionais de segurança temos que entender os negócios nos quais estamos inseridos e ajudar a gerar as condições (ou, no jargão da Nova Visão da Segurança: CAPACIDADES) para que as atividades sejam desenvolvidas de forma autônoma e segura por quem está na linha de frente, e não criar ou ampliar problemas burocráticos que acabam gerando hipocrisia, cinismo e desengajamento dos trabalhadores. Do contrário, estaremos somente gerando Problemas de Agência, conforme definição do Nicholas Nassim Taleb, em seu livro “Anti-frágil – Coisas que se beneficiam com o caos” ao promover intervenções excessivas e desnecessárias, que ao final, somente pioram as coisas.

Não podemos ser Magenta Riddim!

Sejamos facilitadores das relações entre as pessoas de todos os níveis das empresas em que estamos inseridos para que os trabalhadores que executam as atividades tenham o apoio que necessitam dos níveis mais altos da organização. É uma mudança de paradigma importante. Felizmente existem métodos que podem ajudar, como a aplicação de Learning Teams bem contextualizados às organizações em que trabalhamos.

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Leonidas Brasileiro
Leonidas Brasileiro
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