Uma análise rasa e provavelmente injusta do incêndio em Tianjin

A tragédia em Tianjin

As agências de notícias nos trazem tristes notícias de Tianjin, na China, onde um incêndio de grandes proporções destruiu bens e vidas no 10º maior porto do mundo.
Informações preliminares reportam que o incêndio e as explosões fugiram do controle devido às reações químicas ocorridas durante o combate ao próprio incêndio. Não há ainda definição das causas do incêndio.
Ainda que ainda hajam poucas informações sobre este evento específico, é desolador constatar que esta não é a primeira vez que um incêndio tão sério ocorra e, mais desolador ainda é saber que a história se repete em eventos para os quais existem técnicas e tecnologia de prevenção largamente comprovadas.
As investigações feitas após estes desastres, sempre muito profundas, acabam por revelar que as verdadeiras causas resumem-se a más decisões ou omissões por parte dos responsáveis pelas operações onde os eventos ocorreram. Obviamente estes não desejavam as consequências produzidas pelas suas decisões e/ou omissões e talvez nem mesmo soubessem de suas falhas de julgamento. Possivelmente agiam de forma racional pensando no bem dos seus negócios e lhes tenha faltado algum conhecimento específico, que poderia ter modificado sua forma de agir e evitado uma tragédia.
Neste artigo serão explorados alguns conceitos de prevenção de incêndios e preparação e resposta a emergências aplicáveis a todo tipo de indústria, bastante conhecidos e que poderiam ter prevenido ou minimizado as consequências deste acidente.

O que houve

Como o evento ocorrido em 12/08/2015 ainda é recente, ainda não há muitos detalhes sobre o que de fato ocorreu e muito menos sobre suas causas.
Os fatos concretos são que na noite de 12/08/2015, por volta das 23 horas, houveram diversas explosões em um depósito de produtos químicos localizado na zona portuária de Tianjin, um movimentado polo industrial da China. Seguindo-se às explosões, um incêndio devastador consumiu boa parte dos prédios e bens ali localizados, levando também mais de 100 vidas humanas. Maiores detalhes e vídeos do que aconteceu podem ser encontrados nas reportagens acessíveis através destes links:
http://edition.cnn.com/2015/08/15/asia/china-tianjin-explosions/
http://www.nytimes.com/2015/08/15/world/asia/rising-anger-but-few-answers-after-explosions-in-tianjin.html?_r=0
http://www.reuters.com/article/2015/08/14/us-china-blast-idUSKCN0QH2B220150814
http://www.bbc.com/news/world-asia-china-33924501
http://economico.sapo.pt/noticias/infografia-china-alerta-ambiental-apos-explosoes-em-tianjin_226685.html
http://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/08/sobe-para-114-numero-de-mortos-em-explosoes-de-tianjin-na-china.html

Uma análise técnica rasa

Conforme os relatos das reportagens, o incêndio teve início em um depósito de produtos químicos perigosos. A primeira equipe de bombeiros que chegou ao local em atendimento ao princípio de incêndio tentou resfriar o local com água, o que é um procedimento padrão em incêndios. Normalmente se faz isto para manter a temperatura sob controle e fazer com que o vapor de água formado tome o lugar do oxigênio presente no ar e possa debelar o fogo. Esta técnica é muito conhecido por todos os Corpos de Bombeiros do mundo inteiro, praticada à exaustão e quase sempre funciona muito bem, levando ao controle da situação e à extinção efetiva do fogo.

Quase sempre funciona muito bem.

No presente caso, o depósito em questão continha entre outros tantos produtos químicos diversos, um componente químico chamado Carbeto de Cálcio, ou, como nossos avós o conheciam, o famoso “Carbureto”. Uma característica particular do carbeto de cálcio é que ele reage com água e gera acetileno, um gás altamente inflamável. Esta particularidade revelou-se fatal na situação do incêndio em Tianjin.
Como o depósito já estava em chamas, a adição do acetileno piorou muito a situação. O acúmulo do acetileno gerado em um grande bolsão deve ter propiciado as condições para as grandes explosões vistas nos vídeos. Estas explosões por sua vez aumentaram a quantidade de materiais e de calor disponíveis para alimentar o fogo e causar explosões sequenciais, que por sua vez destruíram tudo à sua volta, incluindo as vidas humanas mais próximas.

Possíveis fatores de causa

Conforme visto anteriormente no artigo em que falamos sobre investigação de acidentes, o evento foi causado por alguma condição bem anterior ao evento em si.
Ao comparar este evento com outros fartamente documentados na literatura técnica especializada (muitas das informações mais valiosas vem da NFPA e da FM Global), e contando com a vivência de alguns anos em ambientes industriais e sem a pretensão de determinar a(s) causa(s) do evento em si sem sequer ter participado da investigação, é possível apontar algumas possibilidades de causas.
Nos parágrafos abaixo são apresentados alguns fatores que podem contribuir decisivamente para a ocorrência de eventos similares ao que aconteceu em Tianjin.

Gestão de Produtos Químicos deficiente: Uma boa gestão de produtos químicos prevê regras de identificação correta, armazenamento por compatibilidade, limitação da quantidade estocada, afastamento do depósito em relação a outros prédios e etc. Desrespeito a estas regras pode permitir que condições propícias a acidentes surjam. Para ilustrar este ponto, pode-se citar a regra de que cilindros de oxigênio devem ser mantidos longe de óleos e graxas e de que ácidos e bases não podem ficar juntos. Ambas as combinações produzem reações químicas violentas, são muito conhecidas e aparentemente óbvias até. Existem, no entanto, outras combinações menos conhecidas que são tão perigosas quanto. Como exemplos, a geração de acetileno pela reação da água com carbeto de cálcio ou mesmo a característica de alguns metais como o magnésio em pó serem altamente inflamáveis.

Práticas de Trabalho inadequadas: Práticas de trabalho adequadas são fundamentais na prevenção de quaisquer tipo de incidentes e acidentes. O manuseio correto de produtos químicos é uma das práticas de trabalho mais críticas devido ao conhecimento específico que é exigido, à baixa tolerância à falhas e desvios e às graves consequências potenciais. Por estas razões, o manuseio de produtos químicos deve ser feito sempre conforme procedimentos bem definidos, que estabeleçam claramente como devem ser feitos abastecimentos, transbordos, diluições e aplicações do produto. Deve ser dedicado tempo e esforço inclusive no detalhamento do que fazer com resíduos e embalagens vazias. Nada pode ser deixado ao acaso ou exigir que o funcionário, no momento da execução de alguma atividade, seja colocado em situação que tenha que encontrar, por seus próprios meios, soluções para as lacunas do procedimento real em relação ao que está escrito. A experiência demonstra que, embora nem sempre as soluções encontradas e aplicadas conforme a atividade está sendo executada sejam causas de acidentes, elas podem sim contribuir para um aumento indevido no grau de tolerância a desvios em relação à forma prescrita de execução das atividades envolvendo manuseio de produtos químicos. Eventualmente os desvios tolerados se tornarão tão críticos que acabarão por propiciar condições suficientes para a ocorrência de um incidente ou acidente.

Negligência na Supervisão do Trabalho: Em ambientes industriais, onde a tolerância ao erro é pequena em função da gravidade das consequências potenciais, o papel da supervisão é importantíssimo na prevenção de acidentes e incidentes. Uma supervisão ativa tem condições de detectar e corrigir desvios quando ainda são pequenos, ajudando o trabalhador a dominar melhor suas tarefas e criar a disciplina necessária à execução de suas atividades com segurança. Uma boa supervisão também se mantém atenta às eventuais dificuldades surgidas ao desempenhar as atividades e se esforça para garantir que todos os recursos necessários estejam disponíveis para a realização das atividades com eficiência, qualidade e segurança. Estas atitudes positivas de uma boa supervisão garantem que a probabilidade da ocorrência de eventos não planejados permaneça baixa e, caso ocorram, suas consequências sejam as mínimas possíveis em função das medias de controle implementadas.

Medidas de Controle ineficientes: Absolutamente toda atividade tem seus riscos e estes variam conforme a probabilidade da ocorrência e a severidade das suas consequências, como demonstrado neste artigo, a adoção de medidas de controle – ou Barreiras, conforme o jargão adotado – eficientes é primordial para a prevenção de eventos não planejados. Medidas de controle podem ser agrupadas de forma bem grosseira em Medidas Técnicas, Medidas Gerenciais e Medidas Comportamentais. Todas devem ser usadas em camadas para oferecer níveis de proteção adequados às atividades desempenhadas. A figura abaixo dá uma ideia da diferença entre os tipos de medidas e como se inter-relacionam.

Esquema de Medidas

Medidas de Preparação e Resposta a Emergência inadequadas: Mesmo com todas as medidas de controle implementadas, o risco não é inexistente. Portanto, medidas de preparação e resposta a emergência compatíveis com o tipo de atividade e potenciais consequências devem estar presentes. Devem ser definidos cenários de possíveis eventos e disponibilizados recursos técnicos e humanos para fazer frente a estes cenários.

Formação e Conhecimento Insuficiente da Mão-de-Obra: Todas as atividades produtivas são invariavelmente executadas por seres humanos que tomam decisões o tempo todo, seja para contornar eventuais “arestas” dos procedimentos que devem seguir, para superar dificuldades técnicas ou ajustar as atividades desempenhadas aos seus próprios interesses. Esta afirmação é válida em maior ou menor grau para qualquer ambiente onde haja intervenção humana para movimentar ou transformar algo. Para tomar decisões adequadas, é necessário CONHECIMENTO. Este conhecimento deve tanto ser específico e focado precisamente na tarefa a ser desempenhada quanto mais abrangente, permitindo que o trabalhador compreenda o ambiente onde está inserido, seus riscos e consequências. Falhar em dotar o trabalhador de conhecimentos e de boa formação impede que este possa ponderar os impactos das ações motivadas por suas decisões em sua própria segurança e na de seus colegas e da comunidade em geral. Muitos casos em que pode ser caracterizada “negligência” do trabalhador acontecem pois o mesmo não dispõe de todo o conhecimento necessário para ponderar corretamente a relação custo X benefício de suas ações (ou omissões).

Ambiente de trabalho opressivo: um ambiente de trabalho onde “manda quem pode e obedece quem tem juízo” pode até produzir resultados significativos a curto prazo. Uma gestão agressiva amedronta os trabalhadores e extrai o máximo do seu desempenho por um curto período. Esta tática funciona por pouco tempo, pois os trabalhadores escondem problemas para não se indisporem com gestores intransigentes e mal preparados que não querem ouvir e muito menos solucionar problemas. Em alguns casos mais graves ocorrem inclusive boicotes aos gestores que criam o ambiente de opressão. Tanto esconder problemas quanto boicotar gestores são problemas seriíssimos para a segurança, fazendo com que as condições de trabalho deteriorem-se cada vez mais, até gerar um acidente de graves consequências.

Medidas de Prevenção e Combate a Incêndios

Prevenção e Combate a incêndios é uma disciplina existente desde a época do império romano e que não parou de se desenvolver desde aquela época. As estratégias, táticas e técnicas de prevenção e combate a incêndios evoluíram de acordo com o andamento da história, adotando sempre as tecnologias mais avançadas de cada época para minimizar a probabilidade da ocorrência de incêndios e aumentar as chances de sucesso no combate ao fogo, quando estes ocorressem.
Qualquer medida de prevenção contra incêndios envolve sólidos conceitos de engenharia, com alto grau de responsabilidade para quem os projeta e para quem os executa. Dado o risco envolvido, estas medidas costumam ser bastante conservadoras, usando grandes quantidades de materiais nobres, muito espaço e serviços especializados em abundância. Tudo isto impacta em custos altos que muitos empresários e gestores públicos relutam em assumir dada a sua percepção de que o risco (usualmente avaliado a partir de sua variável PROBABILIDADE) seja baixo.
Como forma de contornar a resistência de empresários e gestores públicos em investir em prevenção contra incêndios, a sociedade passou a exigir a adoção de medidas preventivas através de legislações específicas.
Outro incentivo à adoção de medidas preventivas surgiu a partir do aprendizado proporcionado pela enorme quantidade de incêndios ocorridos ao longo da história. Trata-se da redução dos prêmios de seguro exigidos das empresas que investem em medidas de prevenção conforme definidas por organizações especializadas das quais a FM Global é a mais conhecida.
Mesmo com a obrigatoriedade imposta pela legislação e com os incentivos oferecidos pelas seguradoras, ainda existe alguma relutância em adotar medidas de prevenção contra incêndios. Infelizmente é muito comum encontrar empresas que fazem o mínimo possível ou até mesmo burlam requisitos normativos intencionalmente para manter seus custos baixos.
Para garantir a aplicação da lei, impõe-se que as construções passem por processos de aprovação e para garantir a aderência às medidas preventivas definidas pelas organizações civis, existem auditorias específicas nas quais eventuais desvios devem ser tratados através de planos de ação eficazes. Ambos os processos costumam ser rigorosos e quando bem-feitos e levados a sério dão excelentes resultados. Os possíveis fatores de causa apontados anteriormente neste artigo são tratados em um ou outro lado.
Voltando ao caso do incêndio em Tianjin, parece ficar claro que as medidas de prevenção adotadas estavam aquém das necessidades, o que pode indicar possíveis irregularidades na aprovação dos projetos, na fiscalização das seguradoras e na conclusão dos planos de ação inerentes ao processo.

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Leonidas Brasileiro
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